No setor da saúde, melhorar a gestão impacta diretamente a qualidade de vida

m qualquer tipo de negócio, seja ele qual for, melhorar a gestão de uma empresa é sempre uma missão relevante. Isso porque ao se tornar mais eficiente e produtiva, uma companhia otimiza sua competitividade e, assim, tende a obter mais sucesso, gerar mais renda, empregos etc., ajudando a potencializar a economia do país, o que é bom para todo mundo.

Há um tipo de organização, porém, em que melhorar a gestão é, socialmente, ainda mais importante: no setor da saúde, em entidades como clínicas e hospitais.

Isso porque uma organização do setor da saúde, como qualquer outra, é também o resultado de um modelo de gestão. Se estiverem organizadas por modelos ineficientes, apresentam os mesmos problemas de qualquer outra companhia em situação similar: desperdícios de recursos, de trabalho, de tempo e de espaço. E com isso, inevitavelmente, veem cair a segurança e a qualidade daquilo que é o propósito essencial desse tipo de organização: o cuidado com o paciente.

Isso é ainda mais preocupante no Brasil, principalmente no setor público, onde historicamente, como sabemos, os investimentos e as estruturas de saúde – marcadas por modelos de gestão ainda mais burocráticos e ineficientes do que no setor privado – estão longe de atender todas as demandas da sociedade. Similarmente ao que ocorre também no setor privado, no qual os custos cada vez maiores tornam cada vez mais restrito o acesso a cuidados de saúde.

A boa notícia é que há um movimento hoje no Brasil e no mundo de organizações de saúde que estão descobrindo, cada vez mais, que é insuficiente ter os melhores médicos, enfermeiros, medicamentos e equipamentos se não houver uma gestão eficiente para organizar esse trabalho e torná-lo melhor, mais seguro e acessível a mais gente. São organizações que estão revolucionando seus modelos de gestão e, assim, obtendo resultados impressionantes.

Por exemplo, hospitais públicos e privados que, utilizando conceitos e práticas do sistema lean, mapearam toda a “jornada o paciente”, em setores de pronto atendimento, centros cirúrgicos etc. E descobriram uma série de desperdícios, que fazem com que recursos humanos e materiais valiosíssimos ficassem subutilizados, enquanto pacientes aguardam atendimento. Ou processos complicados, que dificultam a interação entre equipes de especialistas, gerando erros que podem colocar a segurança do paciente em risco. E estão mudando esse quadro através de mudanças na gestão.

Essas iniciativas têm utilizado a filosofia lean, ou mentalidade enxuta, que surgiu há décadas na indústria automobilística, e hoje apresenta aplicações nos mais diversos setores, sejam eles de manufatura ou serviços. Há alguns anos, as primeiras iniciativas de aplicação desses conceitos no setor da saúde enfrentaram muitas dúvidas: sua utilização no cuidado dos pacientes traria os mesmos benefícios que em outras áreas?

Felizmente, hoje em dia, com inúmeros casos de sucesso no Brasil e em outros países, podemos dizer que essas dúvidas sobre se o conceito lean tem aplicação no setor da saúde já estão superadas.

Já existem diversas aplicações em que as equipes, ao identificar esses gargalos e desperdícios, e utilizando os princípios lean, como mapeamento do fluxo de valor, qualidade na fonte, trabalho padronizado, resolução rápida de problemas com envolvimento de todos e gerenciamento visual, conseguiram aumentar a utilização de leitos, centros cirúrgicos, equipamentos de diagnóstico etc. em 20% a 40% em muitos casos. Ou seja, descobriu que havia um “segundo hospital escondido” que não estava sendo utilizado. E isso “apenas” reformulando a gestão.

Histórias nesse sentido são cada vez mais encontradas. Outro exemplo vem de uma grande rede de clínicas também brasileira que vem adotando a gestão lean em todos os seus processos há cerca de 10 anos. Entre outras coisas, ela transformou seus médicos, enfermeiros e outros colaboradores em “solucionadores de problemas” que identificam, discutem e resolvem qualquer desvio em relação ao planejado de maneira rápida todos os dias.

Nesses e em outros exemplos, percebe-se que a gestão lean direciona todo o trabalho de uma organização de saúde para o que é (ou deveria ser) o seu verdadeiro propósito: o cuidado com paciente. Com isso, executivos, médicos e enfermeiros que estão nessa frente dizem que essa mudança de gestão aumenta a segurança, diminui sensivelmente a possibilidade de erro médico, agiliza os atendimentos, elimina filas e esperas, aumenta a capacidade cirúrgica, humaniza o cuidado, entre diversos outros resultados.

Em junho, um grupo de hospitais e profissionais de saúde vai se reunir em São Paulo para detalhar esses casos que estão ocorrendo não só no Brasil, mas nos EUA, Austrália, Argentina e Cingapura – e não apenas no setor privado, mas também em experiências exitosas que já acontecem na saúde pública brasileira.

Eles são a prova de que, mais do que ajudar a aumentar as receitas, gerar empregos, evoluir a economia, na área da saúde, mudar a gestão pode ter um impacto imediato na qualidade de vida de milhões de pessoas e até mesmo evita que vidas sejam perdidas por falta de atendimento a tempo.

*Flávio Picchi é presidente do Lean Institute Brasil e Prof. Dr. da Unicamp

Fonte: Portal Época Negócios

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